sábado, 28 de junho de 2008

A cólera divina

(Adélia Prado)

Quando fui ferida,
por Deus, pelo Diabo, ou por mim mesma,
- ainda não sei - percebi que não morrera, após três dias,
ao rever pardais
e moitinhas de trevo.
Quando era jovem,
só estes passarinhos, estas folhinhas bastavam
para eu cantar louvores,
dedicar óperas ao Rei.
Mas um cachorro batido demora um pouco a latir,
a festejar seu dono- ele, um bicho que não é gente -
tanto mais eu que posso perguntar
Por que razão me bates?
Por isso, apesar dos pardais e das reviçosas folhinhas
uma tênue sombra ainda cobre meu espírito.Quem me feriu perdoe-me.

Nenhum comentário: