sábado, 8 de novembro de 2008

Obamania


Este texto foi publicado originalmente no jornal Diário de Notícias, de Lisboa, Portugal.

Por João Miranda
Diário de Notícias


Barack Obama tem as mais perigosas das qualidades políticas. Domina a retórica e tem carisma. Os seus seguidores têm uma preferência irracional por discursos vazios e programas políticos utópicos e inconsistentes. A obamania só funciona pela suspensão da razão e do espírito crítico. O resultado de tudo isto é um culto de personalidade pouco comum nas democracias liberais.
Os cultos de personalidade valorizam as qualidades do líder e menorizam o papel das instituições. Os cidadãos, em vez de controlarem os governantes, colocam-se à disposição da vontade de um líder providencial. A vitória de Obama é considerada "histórica" pelos mesmos que consideram que George Bush é o pior Presidente de sempre. Estas avaliações são subjectivas e apaixonadas. Falta-lhes distanciamento e objectividade.
Como é evidente, quem está envolvido na luta política contra Bush e por Obama faz uma avaliação negativa de Bush e uma avaliação positiva de Obama. Mas nada impede que, no futuro, a avaliação dos historiadores seja diferente. Felizmente, os historiadores poderão avaliar não apenas os efeitos de curto prazo, mas também os efeitos de longo prazo da acção política de Bush e de Obama. É até possível que os historiadores venham a concluir que a acção de Bush teve um efeito estruturante e positivo no desenrolar da história e que a eleição de Obama não passou de um fogacho sem consequências.
Grande parte dos apoiantes de Obama estão condenados à desilusão, não apenas porque Obama suscitou esperanças contraditórias entre si, mas sobretudo porque a desilusão é normal em democracia. Nas democracias liberais, os períodos de ilusão em relação aos políticos da oposição são seguidos por períodos de desilusão em relação aos mesmos políticos quando estes chegam ao poder.
Apesar de este ciclo ser conhecido e normal, a população parece ter uma capacidade infinita de se voltar a iludir. A crença de que estamos perante um momento único e histórico que vai mudar as nossas vidas repete-se a cada 8 ou 12 anos. É uma crença que passa depressa.

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